4.2.09

Tropeços

Psiquiatras servem pra isso mesmo: Descobri (engraçado dizer "descobri" como se eu ou alguém tivesse achado algo de, realmente, novo. A verdade é que as pessoas não "descobem" nada, elas só tropeçam, sem querer, no que já estava ali e tomam suas "conquistas" com um orgulhoso "Eu descobri uma coisa"... Mas não se percam, isso é apenas uma rápida e estratégica dispersão de pensamentos, distração da verdadeira temática, um piscar de olhos, pra mim, E pra vocês, confesso, e voltando...) que um dos meus maiores problemas que me acompanha, desde que o mundo é mundo e que eu sou esta coisa chamada Lena, é a sede.

Sim, a sede. Eu tenho sede, urgente, pelas melhores coisas, além do meu próprio alcance, além da realidade, do possível já "descoberto" ou inventado. Sabem o que é ter essa sede desvairada e beber um copinho d´água vagabundo, meio sujo, meio feio, meio sem gosto, que não satisfaz a boca, que passa rápido demais pela garganta, que faz tudo errado e simplesmente não satisfaz? E um segundo depois, você quer mais, não por ter gostado, mas por ter achado aqueles breves segundos de degustação, de vivência, medíocres e você ainda tem SEDE, você quer MAIS, do que há de melhor para se beber, consumir, e, finalmente, agregar, do que há de melhor para se sentir os gostos na língua, na garganta, dentro da barriga, dentro da alma, para excitar ainda mais, para tocar a carne como se fosse divino, para ser definitva e grandemente BOM, para superar essa nojeira do meu corpo, essa carne podre que adoece e morre e ser deus, aos goles, ser "extra-humana", mesmo que por segundos, ser o melhor impossível, que possível tem muitos limites, é pobre, e eu não quero isso pra mim.

Eu sou uma perfeccionista, no maior e mais real sentido da palavra. E isso é sim um problema. Olhem o mundo, meus amigos, olhem essa copinho d´água vagabundo, de cor estranha, que desce ruim, esquisito como uma Fanta Morango, amargo. E "Afasta de mim esse cálice, pai", mas você tem sede, sede, muita sede, e você não beberia de uma poça d´água suja se não estivesse morrendo de sede, se não tivesse essa ansiedade, essa avidez, desde anos e anos, que você nem sabe quando bebeu pela última vez e se é que bebeu e quando essa sede toda começou... I can get no satisfaction.

Pelo conceito de que simplesmente as coisas perfeitas não existem (e eu sou a prova viva disso) eu vou ser uma eterna infeliz com essa minha sede que, proporcional a minha consciência da podridão de ser gente, de existir, bem aqui, nesse mundo injusto, feio, bobo, chato e cara de mamão, é enorme, não é humano, não pode ser. Eu não quero só ser sua amiga, eu quero ser o amor da sua vida, da vida de todo mundo. Eu quero ser foda. Quero ser a menina mais bonita, mais linda e apaixonante que você já viu. Quero ser a melhor transa da sua vida. Quero ser a sua esposa, mãe dos seus filhos. Eu quero que vocês chorem como se a vida toda tivesse acabado quando eu morrer. Eu quero deixar infinitas músicas, infinitos livros, infinitos filhos, amantes, todos contaminados com essa coisa maravilhosa que eu fui, sou e serei, pra sempre. Eu quero ser aquela foto, aquela frase, aquela melodia, que não sai da sua cabeça e você nunca, nunca irá se esquecer ou profanar. Eu quero viver pra sempre, na memória dos seus netos, bisnetos... Eu quero ser deliciosamente imortal, justamente pra compensar esse meu corpo frágil e amarelo, cheio de deficiências, disfunções, limites e mortalidade, pequenez.

Eu tenho a sede grande, exatamente por ser pequena, pobre, besta e mesmo assim, eu quero assustar vocês com a minha grandeza. Eu quero impor. Eu quero amor e respeito infinito. Eu quero seus corpos e suas almas entregadas a mim, para que eu viva, de vocês, devorando vocês, longamente. Eu quero voar e na maior velocidade, pra esquecer esse chão aqui, essa coisa presa nos meus pés (e não meus pés presos nele). Eu tenho uma sede gloriosa. E não, você não se indentifica comigo, você não sente a mesma coisa que eu sinto, você não é igual a mim... Porque eu sou grande, alta, tão grande que seus olhos mal alcançam aonde que meu corpo termina, aonde que começa o céu. Eu lembro até hoje, como se fosse hoje (e não é, para sempre?). Por ser a menina mais feia da escola, eu estudava, estudava, estudava, estudava, porque eu queria compensar a minha imensa feiura com uma imensa inteligência. Eu queria o reconhecimento do meu pai, dos professores, o ódio dos meus colegas. Eu queria deixar a todos de bocas abertas. E eu queria que meus professores se masturbassem exatamente pela menina mais feia que eles já viram, eu queria que eles me quisessem, eu queria ser amada por aqueles homens e aquelas mulheres, muito maiores e mais velhos que eu. E eu chorava se eu tirasse qualquer nota abaixo de nove, nove e meio. Eu ficava triste em não ganhar os consursos de redação, de desenho, em receber bronca. Eu ficava triste em não dar o primeiro beijo mais rápido que as outras meninas, e ver elas com os meninos que eu amava sem nem saber porquê. Pra compensar esta água suja, eu tenho essa sede.

Eu "descobri". Eu, na minha infinta pequenez e insignificância, sentada num consultório, numa sala, num prédio, numa rua, sabe se lá onde, com um psiquiatra me olhando, esperando eu falar, eu saber falar, e ultrapassar, contornar e enganar, meus próprios métodos, minha defesa, meu incosciente e aquele blablablá psicológico todo, para poder me desmitifcar e me explicar, explicar a minha existência, esta coisa aqui chamada Lena, pra explicar a minha tristeza, a minha preguiça, os meus remédios de tarja preta, meu choro compulsivo, minha risada falsa, a minha sede... E, agora, eu "descobri". Descobri qual o meu problema, o que me movimenta, os meus motivos, o porque de eu me apaixonar por pessoas que parecem ser "mágicas" e segundos depois, me frustrar, querer me esquecer delas, porque elas não eram tudo aquilo, elas não eram perfeitas e maravilhosas como só eu queria ser, o porque de eu desistir de tudo, por não querer tentar, porque eu quero a perfeição e se ela é impossível de atingir, eu não quero nada. Nada. "Descobri" a minha sede. E como matá-la ou esquecê-la? Eu ainda não tropecei nisso...

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