10.2.10

Brega (e ruim)



Curitiba, 28 de janeiro de 2005.




Durante meses eu te admirei, até concluir que tudo não passa de um grande teatro brega. Que todas as descrições são baratas como a banana.




Sai pra lá e me devolva o salto junto com o sapato que me fizestes retirar. Porque o chão suja os pés de todos, mas machuca com suas pedras e pregos a sola daqueles que lho percebem.




Chega! Eu quero de volta a cegueira indolor da hipocrisia, que pelo menos o meu mundo era falso, mas não doía... Não doía.




Sim, você é brega porque eu já saquei o seu jogo, porque eu já sei que você diz aquilo que querem ouvir.




Você é tão brega que é capaz de agradar ao senso comum, pelo fato de sê-lo integralmente (e compreendê-lo).




Por isso mesmo você é extraordinário.




Seu brega!








(e eu adoro banana!)




Final de manhã, uma prova densa, e-mails, livros devolvidos na biblioteca, passos molengas, jeans escuro, tênis e mochila vermelhos, blusão de lã preta. Ela aguarda o ônibus ouvindo pelo fone uma música antiga, dos tempos em que se pendurava no pescoço do tio e com ele saía para festas.


A passos firmes chega um outro de terno, sóbrio, discreto, óculos finos, também espera o ônibus. Com sorriso amistoso, faz questão que a moça embarque primeiro. Ela agradece com um aceno de cabeça e dirige-se aos últimos bancos vazios.


Nota-se uma atmosfera sutilmente nervosa. Mãos que se apertam entre - dedos, uma música que perde o sentido e logo ela guarda os fones no bolso. Tenta fixar os olhos num livro qualquer, mas percebe outros, discretos a lhe reparar.


Pelo reflexo do vidro, sem começar de frente, evitando assim, uma impressão inquisitiva, ela puxa um assunto qualquer. A demorada costumeira meia hora voa. Num instante chegam ao terminal, é hora de desembarcar.


Ele pede que ela espere alguns segundos mais, a acompanha ao atravessar a rua, mas o segundo ônibus chega. ela sente uma inexplicável vontade de beijar-lhe a boca, lembrando a si mesma que não costuma agir em rompantes, estranhando em si aquela natureza de idéias.


Despedem-se e vão para suas casas.



(e a vontade de sorrir não passa no resto de dia.)