Tudo começou no dia treze do mês oito do décimo quarto ano depois que Verselêncio sumiu-se lago a diante. Assim contou a D. Berta, que passava as tardes crocheteando tranças com os restos de fio que ficaram no pátio da fábrica abandonada. Trança, argola, trança, argola, trança... até juntar o suficiente para uma cortina a ser vendida na feira de artesanato da paróquia, dia e meio antes da quermesse. O sinal do fim do começo dos tempos, tão bem marcado foi dado pelo vento, que soprou a areia das folhas em caracol, sobre os blocos de pedra, nas ruas da vila, quando o Cramunhão chegou, arrastando uma mala cheia de pratas, cobres e ouros. Para distribuir a quem lhe fosse previsível.
Vendeu-se a cortina de tranças e argolas e restos de fio. Fez-se festa com bolo de fubá, pipoca e quentão, muito ki-suco vermelho pros bacuris. Vivonéia-sempre-bela, de vestido floreado, uma uva de menina, enamorou-se do Laurecir que morava atrás da Serra-Braba. E então, exatas quatro luas depois, estava decidido: que montado num cavalo, ele atravessaria o crespo mato para oficializar o interesse. Só que não contou com a astúcia do Quim Saravá, que, do alto do portão, escondido, saltou de capa preta, zurrando feito o quê na frente da montaria. O bicho apavorado deu pinote que jogou o pobre Laurecir de cabeça numa pedra. E lá ficou desmaiado.
Dá-lhe reza forte pro mancebo acordar. Ordenaram até que as mulheres fizessem xixi na latinha pra lhe jogar na cara e nada. Sete minutos depois de três horas e meia de aflição ele abre o olho esquerdo, atirado numa sala esquizita com teto de madeira pintada em forma de estrela.
O relógio parou, o sino badalou, o Cramunhão sentou na cadeira de balanço que Berta desocupou para ver a chaleira na cozinha e Verselêncio, branco que nem farinha de rosca, entrou pela janela, garantindo a volta de uma espera que nem existia mais.
9.5.09
Furto honesto de post muuuito antigo... hehehe
Deus, por favor não mais permita que os cachorros me dirijam olhares tristes por trás das grades do jardim das casas.
Deus, poupe-me também dos olhares tristonhos das empregadas que contemplam a cidade apoiadas nas sacadas dos prédios.
Tira, por favor, de todos os asilos, os adesivos do Ecco Salva afixados nas paredes.
Que as vastas platéias de cinema sejam ocupadas sempre por uma única pessoa, e que na saída do filme chova invariavelmente.
Bota fim, Deus, a esse constrangimento injustificado que faz com que as pessoas desistam de foder e dar abraços, mesmo quando elas sabem que isto seria necessário.
Convence a todos da impossibilidade do amor, e observa enquanto descobrem o amor como a única possibilidade.
Quanto aos pecados capitais, peço que tornes a Gula compatível com a Vaidade, a Preguiça compatível com a Avareza, a Ira compatível com a Inveja, e que a Luxúria soterre as anteriores.
Acabe com a Aids, Deus.
Que todos tenham plena consciência de que vão morrer definitivamente, e que na hora da morte não possam evitar um breve sorriso de desobediência infantil.
E conserva os dentes dentro de nossas bocas, para que apodreçam conosco.
Que persista no tempo apenas aquilo que fomos capazes de criar.
Peço que amanhã de manhã, Deus, eu seja acordado com o peso familiar de um certo corpo em cima do meu.
Que o sol invada minha barraca brando, resignado.
Então será o ano 2000, mas não fará diferença.
(Daniel Galera)
Deus, poupe-me também dos olhares tristonhos das empregadas que contemplam a cidade apoiadas nas sacadas dos prédios.
Tira, por favor, de todos os asilos, os adesivos do Ecco Salva afixados nas paredes.
Que as vastas platéias de cinema sejam ocupadas sempre por uma única pessoa, e que na saída do filme chova invariavelmente.
Bota fim, Deus, a esse constrangimento injustificado que faz com que as pessoas desistam de foder e dar abraços, mesmo quando elas sabem que isto seria necessário.
Convence a todos da impossibilidade do amor, e observa enquanto descobrem o amor como a única possibilidade.
Quanto aos pecados capitais, peço que tornes a Gula compatível com a Vaidade, a Preguiça compatível com a Avareza, a Ira compatível com a Inveja, e que a Luxúria soterre as anteriores.
Acabe com a Aids, Deus.
Que todos tenham plena consciência de que vão morrer definitivamente, e que na hora da morte não possam evitar um breve sorriso de desobediência infantil.
E conserva os dentes dentro de nossas bocas, para que apodreçam conosco.
Que persista no tempo apenas aquilo que fomos capazes de criar.
Peço que amanhã de manhã, Deus, eu seja acordado com o peso familiar de um certo corpo em cima do meu.
Que o sol invada minha barraca brando, resignado.
Então será o ano 2000, mas não fará diferença.
(Daniel Galera)
1.5.09
Decreto
A partir de hoje
nego qualquer parcela de tempo
A partir de hoje
sou eterna
A partir de hoje
nego qualquer parcela de finito
A partir de hoje
sou o infinito
nego qualquer parcela de tempo
A partir de hoje
sou eterna
A partir de hoje
nego qualquer parcela de finito
A partir de hoje
sou o infinito
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