27.2.09

Furto honesto...

making love...

Quando o suicídio lhe pareceu menos exato, postou-se de joelhos à frente de um mendigo e lhe sussurou uma palavra de amor qualquer, lhe entregando as chaves da casa. Que ficava em frete a praça central, rodeada de um imenso jardim coberto de pétalas de rosas mortas. Morte, que era o que restava às aranhas que sustentavam, com suas teias, as janelas e paredes daquilo tudo que um dia ele construiu e sonhou em deixar para os filhos que nunca ia ter.

Por certo - pensou - eu hei de ter um fim digno de minha existência, mesmo que me faltem páginas nos jornais ou quem me jogue terra por cima. E as vozes, que já eram muitas, brindaram quando ele embarcou naquele ônibus com destino ao porto. O senhor há de ter uma morte dolorosa numa noite muito fria, e eu vou achar seu corpo, dois dias depois, coberto de lixo, quando for procurar a refeição de meus irmãos.

Não pôde ver a morte, nem a certeza, nem a exatidão no brilho dos olhos do menino. Só a sua convicção contrastada com um olhar de quem não vê o que fala, nem fala o que sente. É aqui, é aqui que o senhor vai morrer. Mas não se preocupe, quase ninguém vai ver o senhor chorar em desespero. O homem se abaixou e tocou com a palma da mão aquela que seria a sua mortalha, uma linda rua de pedras adormecidas. Um resumo de sua vida. Os amores nasciam mortos, mesmo que não lhe faltassem avisos.



pré-conceituado por Gaudz
http://teoriadoconceito.blogger.com.br/2004_07_01_archive.html

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