Há um tempo atrás aconteceu...
...um episódio cheio de significado - e coisas estranhas de entender - com uma garota que eu queria impressionar e mostrar uma infinita personalidade. Mas me ocorria que qualquer coisa nesse sentido era dar-lhe a oportunidade para se aproximar e isso eu não admitia - não me ocorria bem a idéia de ser alcançado.
E por obra da não-coincidência, o estojo de colégio dela ficou comigo e eu sabia que, antes de qualquer dia de aula, cedo ou tarde, ela iria buscá-lo. Não tenha dúvidas: assim aconteceu.
Incrível é lembrar que eu sabia da intenção dela. A de só querer estar por perto pra sentir o cheiro diferente de uma pessoa diferente; de estar próxima pra saber e conhecer o que ela mesma queria. E não me sinto iludido na consciência de adulto para traduzir minha sensação de menino. Me lembro perfeitamente do perfume, do quarto, do estojo o do desenho torto que nele fiz.
Se por um lado eu sabia que nada viera nas minhas mãos por acaso, sabia que nada poderia ir sem a minha marca ou sem alguma coisa que de mim fosse natural lembrar. E na atitude mais inédita para minha espontaneidade, só pude gravar naquele estojo velho, confuso no verde escuro e na sujeira, uma palavra de significado errado para todas as outras pessoas.
Fiz a arte com um cuidado perfeito, mas hoje me recordo da imagem e a vejo torta, fora dos parâmetros impressionantes que eu queria.
Alguém a levou para buscar o prêmio. E eu me servi a pior maneira possível: distante, altivo; e no momento da entrega, extremamente envergonhado... puramente envergonhado da minha falta de originalidade. Naquele momento eu era um ser pueril e me lembro perfeitamente de olhar para o feito e não para a garota. Perguntei se ela havia se incomodado, mas numa negativa justa e sem mérito disse que não. Que havia gostado, concluiu - mas foi conclusão sem dedicação.
Certamente ela esperava mais, ou menos, ou alguma coisa diferente de um desenho. Mas, se naquele momento eu a beijasse, a encheria de pó até a alma.
Pensando bem, acho que eu nem era mesmo capaz desse impropério. É difícil ser quem eu sou. E hoje sei que qualquer que fosse a minha biltre atitude ela não seria como a de agora imaginada, entretando, me sinto impregnado na verdade daquilo tudo.
Desde o desenho, que em mim ficou como um apelido; desde a saída rápida dela pela porta, pela sala, até lá fora; se um dia eu puder dedicar uma memória àquele momento, será uma fotografia empoeirada dela na cama, com uma blusa branca linda, olhando alguém que estava impressionado por si mesmo.
Autor: Clayton
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