Bem... por algum motivo, senti a necessidade de esclarecer algumas coisas.
Talvez você tenha se assustado um pouco com o meu comportamento ou, quem sabe não tenha gostado mesmo. Espero sinceramente que tenha sido a primeira opção.
Deve ser muito estranho encontrar uma pessoa que sem mais nem menos topa viajar com você tendo lhe conhecido há pouco mais de uma semana, que aceita sair contigo em horários absurdos e que faz sexo sem proteção na primeira oportunidade que vocês têm de ficar a sós. Você deve estar pensando “mas que criatura mais sem noção essa, hein?!” ou ainda (nas suas próprias palavras...) “a vida é mesmo uma coisinha”. Sim, deve ser tudo muito incomum uma vez que você também pouco sabe sobre mim, minha história, meu passado e meu improvável futuro.
Pois bem. Praticamente toda a minha vida, tentei ser a garota perfeita. A que tirava boas notas na escola, que estudava para as provas muito antes da véspera, que nunca colava ou passava cola. Que adorava comer verduras. Sempre levei as pessoas muito à sério, inclusive a mim mesma. Sempre cumpri com as minhas obrigações e sempre fui muito responsável em qualquer coisa que assumisse. Eu teria sim um futuro brilhante como juíza ou professora, provavelmente muito bem casada, com filhos lindos e perfeitos, morando todos juntos numa casa com jardim. Nunca me esqueço da cena em que, aos 16 anos eu fui conversar com meu pai e lhe pedir autorização para ter meu primeiro namorado. Também inesquecível foi terminar um namoro, aos 21 anos, com um cara que não conseguia acreditar no fato de que eu ainda era virgem com aquela idade. Uma virgem que sabia beijar e agarrar muito bem a ponto de deixar o cara completamente doido, modéstia à parte. Sempre cuidei da minha vida de maneira bastante regrada, séria e responsável... Conheço muito bem o meu corpo e tenho um controle quase absurdo sobre minhas reações fisiológicas. Algumas pessoas talvez até me achem a criatura mais chata da face da terra, sempre previsível e certinha. Pena que para mandar nos sentimentos, eu não tenha o mesmo nível de controle.
Mas teve aquele dia em que, ao fazer um check-up de rotina, o médico constatou algo estranho em meus exames. Ainda que eu não fizesse nada de extraordinário e me alimentasse muito bem, uma anemia muito forte era denunciada pelo meu sangue. - Como assim poderia ter algo de errado no meu sangue? No meu sangue A- de doadora assídua do hemobanco? - Suplementos alimentares, ferro e vitaminas, mais regras seguidas à risca e, algum tempo depois, o diagnóstico definitivo: câncer. Optei por tentar a cura com tratamentos não convencionais porque já perdi três amigos para essa doença. Não quero passar por todo o sofrimento que eles tiveram com a medicina tradicional, com a quimio. Somente faço um acompanhamento com meu médico para saber como está o meu quadro. Ele diz que eu tenho entre seis e dez meses de vida (margem generosa, não?!), apenas. Apenas. Eu poderia extender e até extinguir esse prazo (embora não acredite nisso) se fizesse o tratamento que ele indica. Só que eu não quero. Acho que já me basta ter visto a trajetória cruel que essa doença adotou com meus amigos. Não quero definhar como eles, sofrer como se um bicho vivo me comesse por dentro. Sabe, eu posso não estar aqui na virada para o ano que vem, no teu aniversário ou no próximo carnaval.
Gostaria de dizer que você é muito especial para mim. Porque foi uma das primeiras pessoas que eu resolvi paquerar que me corresponderam. Eu tenho muitos pretendentes conquistados porque os ignorei completamente. Isso não faz o menor sentido para mim: ignorar alguém para conquistá-lo. Sempre achei que dizer a verdade sobre qualquer sentimento seria o melhor caminho. Talvez a minha sinceridade em dizer “não quero nada com vocês” é que, justamente, os tenha conquistado. Mas com você é diferente. Você me correspondeu no início e agora, parece ter perdido o interesse. O que me magoa é o fato de você não dizer isso às claras. Termos conversas maravilhosas e você não dizer que não quer nada comigo. Você seria tão mais “homem de verdade” se agisse assim. Teria todo o meu respeito pelo resto da vida. Da minha curta vida.
Uma vez contei à você que tenho a sede grande. Uma vontade de Viver (sim, com letra maiúscula) a vida intensamente. Hoje sei que não morrerei de velha como eu tanto queria, que não vou “levar meus netos para saltar de pára-quedas” e que meu relógio biológico funciona em contagem regressiva para o gran finale.
Hoje, uma das coisas que mais me faria feliz seria ter você como companhia para assistir aquela apresentação que te convidei. Pena que você é um frouxo e permitiu que eu criasse expectativas a seu respeito quando aceitou o meu convite para, logo na hora de sair de casa, você “me dar os canos”. Sim, projetei em você a grande e derradeira paixão à primeira vista da minha vida e me sinto infinitamente magoada nesse exato momento.
Saiba que o teu não seria o primeiro fora que levo de alguém. Com outras duas pessoas com quem resolvi “tomar a iniciativa” e que me corresponderam não foi possível continuar o relacionamento porque uma das partes se desinteressou da outra. Contudo, todos os outros que terminaram em um fora, cumpriram com seu papel de homem maduro e decente e me disseram um “me desculpe, mas não estou a fim de você” com todas as letras. Pode parecer coisa rara, mas eu tive essa sorte conquistada porque eu sempre agi de maneira sincera com os meus sentimentos, sem dizer meias verdades ou criar falsas esperanças.
Tem um texto do Rubem Braga que diz que a mulher esperando homem leva um papo com o diabo. E é nessas horas em que eu rezo para que você me dê um fora com todas as palavras necessárias se você realmente não quer nada comigo. Que droga! Que merda! Que grande porcaria! Eu quero você e você já sabe disso. Eu estou muito a fim sim e isso não me envergonha nem um pouco porque não vejo mal algum nisso. Mas, pelo visto, você não dá a mínima.
Quer saber o que me deixa fula também? Sinto que já perdi quase dois meses esperando engrenar um relacionamento fugaz, porém decente com você. Pra quem tem a vida toda pela frente, isso pode não ser nada. Mas para mim é. É muita coisa. Você é capaz de entender pelo menos essa urgência?
Então, minha adorada criatura, eu quero você aqui comigo agora. Quero muito. Mas por favor, saia de cima desse muro. Assuma de uma vez um dos lados. Converse comigo de maneira sincera e clara. Só me dê esperanças se me quiser. Eu só vou acreditar verdadeiramente nisso quando você estiver aqui, segurando as minhas mãos e me tirando o fôlego com teu beijo. Ou então, me diga, sem medo nem remorso. E eu também só vou acreditar em você, te respeitar infinitamente se você me der um fora. Doerá sim, mas muito menos no que dói agora. Eu não tenho medo de sofrer. O que é um sofrimentozinho a mais pra quem tem a certeza de que a morte chega à galope?
Eu valorizo demais as palavras ditas e escritas, confesso e reconheço esse defeito. Ainda mais porque, normalmente, não sou de falar muito, assim como a porção de você que conheci.
Depois disso, não ouse dizer que não tenho respeito pela minha vida. Que eu tenho me arriscado demais ultimamente. Você, talvez não saiba o que é isso. Eu quero viver, intensamente. Não tenho mais nada, além do tempo, a perder. Quero experimentar um pouco de tudo. Só que no meu estágio, sei que serei muito mais breve do que a maior parte das outras pessoas.
Me diga, por favor, que não perdi meu precioso tempo com você. Não quero você comigo por piedade, mas se não posso tê-lo, de momento, então não quero mais nada e muito obrigada por tudo o que vivi contigo. Prefiro me recolher em casa, deitar na rede, com as luzes apagadas e deixar que o ambiente se inunde com o som do meu coração e do sangue que ainda correrá quente pelo meu corpo.
Talvez você tenha se assustado um pouco com o meu comportamento ou, quem sabe não tenha gostado mesmo. Espero sinceramente que tenha sido a primeira opção.
Deve ser muito estranho encontrar uma pessoa que sem mais nem menos topa viajar com você tendo lhe conhecido há pouco mais de uma semana, que aceita sair contigo em horários absurdos e que faz sexo sem proteção na primeira oportunidade que vocês têm de ficar a sós. Você deve estar pensando “mas que criatura mais sem noção essa, hein?!” ou ainda (nas suas próprias palavras...) “a vida é mesmo uma coisinha”. Sim, deve ser tudo muito incomum uma vez que você também pouco sabe sobre mim, minha história, meu passado e meu improvável futuro.
Pois bem. Praticamente toda a minha vida, tentei ser a garota perfeita. A que tirava boas notas na escola, que estudava para as provas muito antes da véspera, que nunca colava ou passava cola. Que adorava comer verduras. Sempre levei as pessoas muito à sério, inclusive a mim mesma. Sempre cumpri com as minhas obrigações e sempre fui muito responsável em qualquer coisa que assumisse. Eu teria sim um futuro brilhante como juíza ou professora, provavelmente muito bem casada, com filhos lindos e perfeitos, morando todos juntos numa casa com jardim. Nunca me esqueço da cena em que, aos 16 anos eu fui conversar com meu pai e lhe pedir autorização para ter meu primeiro namorado. Também inesquecível foi terminar um namoro, aos 21 anos, com um cara que não conseguia acreditar no fato de que eu ainda era virgem com aquela idade. Uma virgem que sabia beijar e agarrar muito bem a ponto de deixar o cara completamente doido, modéstia à parte. Sempre cuidei da minha vida de maneira bastante regrada, séria e responsável... Conheço muito bem o meu corpo e tenho um controle quase absurdo sobre minhas reações fisiológicas. Algumas pessoas talvez até me achem a criatura mais chata da face da terra, sempre previsível e certinha. Pena que para mandar nos sentimentos, eu não tenha o mesmo nível de controle.
Mas teve aquele dia em que, ao fazer um check-up de rotina, o médico constatou algo estranho em meus exames. Ainda que eu não fizesse nada de extraordinário e me alimentasse muito bem, uma anemia muito forte era denunciada pelo meu sangue. - Como assim poderia ter algo de errado no meu sangue? No meu sangue A- de doadora assídua do hemobanco? - Suplementos alimentares, ferro e vitaminas, mais regras seguidas à risca e, algum tempo depois, o diagnóstico definitivo: câncer. Optei por tentar a cura com tratamentos não convencionais porque já perdi três amigos para essa doença. Não quero passar por todo o sofrimento que eles tiveram com a medicina tradicional, com a quimio. Somente faço um acompanhamento com meu médico para saber como está o meu quadro. Ele diz que eu tenho entre seis e dez meses de vida (margem generosa, não?!), apenas. Apenas. Eu poderia extender e até extinguir esse prazo (embora não acredite nisso) se fizesse o tratamento que ele indica. Só que eu não quero. Acho que já me basta ter visto a trajetória cruel que essa doença adotou com meus amigos. Não quero definhar como eles, sofrer como se um bicho vivo me comesse por dentro. Sabe, eu posso não estar aqui na virada para o ano que vem, no teu aniversário ou no próximo carnaval.
Gostaria de dizer que você é muito especial para mim. Porque foi uma das primeiras pessoas que eu resolvi paquerar que me corresponderam. Eu tenho muitos pretendentes conquistados porque os ignorei completamente. Isso não faz o menor sentido para mim: ignorar alguém para conquistá-lo. Sempre achei que dizer a verdade sobre qualquer sentimento seria o melhor caminho. Talvez a minha sinceridade em dizer “não quero nada com vocês” é que, justamente, os tenha conquistado. Mas com você é diferente. Você me correspondeu no início e agora, parece ter perdido o interesse. O que me magoa é o fato de você não dizer isso às claras. Termos conversas maravilhosas e você não dizer que não quer nada comigo. Você seria tão mais “homem de verdade” se agisse assim. Teria todo o meu respeito pelo resto da vida. Da minha curta vida.
Uma vez contei à você que tenho a sede grande. Uma vontade de Viver (sim, com letra maiúscula) a vida intensamente. Hoje sei que não morrerei de velha como eu tanto queria, que não vou “levar meus netos para saltar de pára-quedas” e que meu relógio biológico funciona em contagem regressiva para o gran finale.
Hoje, uma das coisas que mais me faria feliz seria ter você como companhia para assistir aquela apresentação que te convidei. Pena que você é um frouxo e permitiu que eu criasse expectativas a seu respeito quando aceitou o meu convite para, logo na hora de sair de casa, você “me dar os canos”. Sim, projetei em você a grande e derradeira paixão à primeira vista da minha vida e me sinto infinitamente magoada nesse exato momento.
Saiba que o teu não seria o primeiro fora que levo de alguém. Com outras duas pessoas com quem resolvi “tomar a iniciativa” e que me corresponderam não foi possível continuar o relacionamento porque uma das partes se desinteressou da outra. Contudo, todos os outros que terminaram em um fora, cumpriram com seu papel de homem maduro e decente e me disseram um “me desculpe, mas não estou a fim de você” com todas as letras. Pode parecer coisa rara, mas eu tive essa sorte conquistada porque eu sempre agi de maneira sincera com os meus sentimentos, sem dizer meias verdades ou criar falsas esperanças.
Tem um texto do Rubem Braga que diz que a mulher esperando homem leva um papo com o diabo. E é nessas horas em que eu rezo para que você me dê um fora com todas as palavras necessárias se você realmente não quer nada comigo. Que droga! Que merda! Que grande porcaria! Eu quero você e você já sabe disso. Eu estou muito a fim sim e isso não me envergonha nem um pouco porque não vejo mal algum nisso. Mas, pelo visto, você não dá a mínima.
Quer saber o que me deixa fula também? Sinto que já perdi quase dois meses esperando engrenar um relacionamento fugaz, porém decente com você. Pra quem tem a vida toda pela frente, isso pode não ser nada. Mas para mim é. É muita coisa. Você é capaz de entender pelo menos essa urgência?
Então, minha adorada criatura, eu quero você aqui comigo agora. Quero muito. Mas por favor, saia de cima desse muro. Assuma de uma vez um dos lados. Converse comigo de maneira sincera e clara. Só me dê esperanças se me quiser. Eu só vou acreditar verdadeiramente nisso quando você estiver aqui, segurando as minhas mãos e me tirando o fôlego com teu beijo. Ou então, me diga, sem medo nem remorso. E eu também só vou acreditar em você, te respeitar infinitamente se você me der um fora. Doerá sim, mas muito menos no que dói agora. Eu não tenho medo de sofrer. O que é um sofrimentozinho a mais pra quem tem a certeza de que a morte chega à galope?
Eu valorizo demais as palavras ditas e escritas, confesso e reconheço esse defeito. Ainda mais porque, normalmente, não sou de falar muito, assim como a porção de você que conheci.
Depois disso, não ouse dizer que não tenho respeito pela minha vida. Que eu tenho me arriscado demais ultimamente. Você, talvez não saiba o que é isso. Eu quero viver, intensamente. Não tenho mais nada, além do tempo, a perder. Quero experimentar um pouco de tudo. Só que no meu estágio, sei que serei muito mais breve do que a maior parte das outras pessoas.
Me diga, por favor, que não perdi meu precioso tempo com você. Não quero você comigo por piedade, mas se não posso tê-lo, de momento, então não quero mais nada e muito obrigada por tudo o que vivi contigo. Prefiro me recolher em casa, deitar na rede, com as luzes apagadas e deixar que o ambiente se inunde com o som do meu coração e do sangue que ainda correrá quente pelo meu corpo.
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Ps.: Três dias depois, chegou a notícia do falecimento do destinatário.
Acidente numa curva.
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