10.2.10





Final de manhã, uma prova densa, e-mails, livros devolvidos na biblioteca, passos molengas, jeans escuro, tênis e mochila vermelhos, blusão de lã preta. Ela aguarda o ônibus ouvindo pelo fone uma música antiga, dos tempos em que se pendurava no pescoço do tio e com ele saía para festas.


A passos firmes chega um outro de terno, sóbrio, discreto, óculos finos, também espera o ônibus. Com sorriso amistoso, faz questão que a moça embarque primeiro. Ela agradece com um aceno de cabeça e dirige-se aos últimos bancos vazios.


Nota-se uma atmosfera sutilmente nervosa. Mãos que se apertam entre - dedos, uma música que perde o sentido e logo ela guarda os fones no bolso. Tenta fixar os olhos num livro qualquer, mas percebe outros, discretos a lhe reparar.


Pelo reflexo do vidro, sem começar de frente, evitando assim, uma impressão inquisitiva, ela puxa um assunto qualquer. A demorada costumeira meia hora voa. Num instante chegam ao terminal, é hora de desembarcar.


Ele pede que ela espere alguns segundos mais, a acompanha ao atravessar a rua, mas o segundo ônibus chega. ela sente uma inexplicável vontade de beijar-lhe a boca, lembrando a si mesma que não costuma agir em rompantes, estranhando em si aquela natureza de idéias.


Despedem-se e vão para suas casas.



(e a vontade de sorrir não passa no resto de dia.)

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